quarta-feira, 4 de junho de 2008

A MINHA GUERRA NA GUINÉ-BISSAU


O MEU ÚLTIMO DIA NA GUINÉ


Albano Mendes de Matos


Foi um momento emocionante o meu último dia na Guiné-Bissau, em 13 de Outubro de 1974.

O pessoal que restava do meu serviço, Contabilidade, saiu para o aeroporto de Bissalanca, logo pela manhã, como quase todos os militares que ainda lá se encontravam. Levaram rações de combate para as refeições. Creio que com receio de algum acontecimento. Permaneci no local do meu serviço, para entregar as instalações e materiais às tropas do PAIGC, com guias de entrega e tudo, como estava combinado. Fiquei apenas com um jipe e um condutor, militar português, para me transportar do Quartel-General de Santa Luzia para Bissau e, depois, para o aeroporto.

Cerca das 11 horas, chegaram 6 negros, escoltados por uma secção das tropas do PAIGC, a pedirem os vencimentos a que tinham direito, porque tinham sido soldados portugueses. Tinham direito aos vencimentos de Abril a Dezembro de 1974, como fora acordado. Os ex-soldados portugueses tinham fugido para o Senegal após o 25 de Abril, porque tinham receio que os prendessem ou fuzilassem.

As famílias avisaram esses ex-soldados para se deslocarem a Bissau, para exigirem o pagamento. Eu tinha pedido à Emissora da Guiné para avisar todas as pessoas, militares e civis, e as empresas que tivessem a receber alguma coisa do Exército Português, que o comunicassem até, creio, ao dia 10 de Outubro [de 1974].

Interessante foi o caso de uma Casa de Instrumentos Musicais pedir o pagamento de 6 clarins que tinham sido fornecidos ao Comando Militar da Guiné... em 1940.

Disse aos ex-soldados que já não havia dinheiro e o tesoureiro já se encontrava em Portugal. Responderam-me que eu queria era ir para Portugal gozar com o dinheiro deles. Levei-os à tesouraria e mostrei-lhes os cofres abertos, sem dinheiro e disse-lhes que poderia promover o envio do dinheiro, quando chegasse a Portugal, para a Embaixada na Guiné. Tomei nota dos números, nomes e da Unidade a que pertenceram. Entreguei-lhes uma declaração assinada por mim e pelo comandante da secção militar do PAIGC. Em Novembro/Dezembro enviei o dinheiro devido ao 6 militares, não tendo conhecimento se o receberam.

Chegadas as 13 horas, sem que tivesse aparecido qualquer elemento do PAIGC, nem o meu condutor, como lhe havia dito, para me conduzir a casa de um locutor da Emissora, português que ficou na Guiné, para almoçar. Com uma pequena mala, resolvi ir, a pé, para o forte da Amura, junto ao Cais do Pindjiguiti, onde tinha a minha bagagem.

Quando, na estrada, me preparava para caminhar, surgiu um jipe com um militar do PAIGC, mulato, de meia-idade, que me disse:

- Camarada, para onde vai?

Contei-lhe o sucedido e logo se prontificou levar-me à Amura, mas que lhe ensinasse o caminho, porque só tinha ido a Bissau, durante a guerrilha, uma vez, de noite, ao cinema na UDIB (União Desportiva Internacional de Bissau). Perguntando-lhe quem era, respondeu que era um comandante do Exército do PAIGC, que fora ver as instalações do Comando do Quartel-General, onde se iria instalar, ainda nesse dia.

Conduziu-me no jipe não à Amura, mas a um restaurante de um primo do meu condutor, português a quem o Governo da Guiné pediu para não sair, porque era o chefe da fábrica de descasque de arroz, situada numa ilhota, no rio Geba, em frente de Bissau.

Lá encontrei o meu condutor com uma grande bebedeira, não podendo conduzir o jipe. Disse-lhe que não se embebedasse mais, porque às 11 horas da noite tinha que estar junto do jipe, em frente do restaurante do primo, para irmos para o aeroporto.

Almocei e jantei na casa do referido locutor e andei pelas ruas e pelos bares de Bissau. Só encontrava guineenses que me cumprimentavam e desejavam boa viagem e muita sorte.

Dei por mim a olhar para as memórias portuguesas que ficavam por aquelas paragens: edifícios, estátuas, toponímia. E a recordar a história que me tinham ensinado, com navegadores, guerreiros, missionários e pacificadores.Imaginei os primeiros portugueses a chegar àquelas terras. E eu, agora, o último a passear pelas ruas de Bissau, no fim do Império.

Estavam lá mais portugueses, o Governador e alguns militares, mas não saíam à rua. Às 23 horas, foram sob escolta para o aeroporto. Também estava um navio com um Batalhão nas proximidades do porto, para zarpar quando o último avião da Guiné estivesse no ar, para a última viagem aérea de uma parte do Império.

Um pouco depois das 11 horas da noite, dirigi-me para o jipe. O condutor estava melhor da bebedeira. Com ele estava o primo. Alguns negros param a olhar para nós. Aproximaram-se. O jipe arrancou. Os guineenses ficaram a acenar, de braços levantados. Descemos pela avenida principal, subimos pelo lado do campo de futebol.

Sentia uma sensação estranha. Já na estrada do aeroporto, olhei para trás. Duas lágrimas saltaram-me dos olhos, recordando o sangue português derramado naquelas paragens. Era estrangeiro numa nova nação.

Já perto do aeroporto, o condutor perguntou-me:

- Meu tenente, onde deixo o jipe?

- Atira-o para uma barreira!

Parámos à entrada do parque do aeroporto. Desci com a pequena mala. O condutor colocou uma sacola no chão, subiu para o jipe e conduziu-o até uma pequena ladeira, ao lado da estrada, um pouco antes do aeroporto, para onde o encaminhou com um pequeno empurrão.

No aeroporto, para entrarem no último avião da Guiné, estavam o Governador, o Comandante Militar, alguns militares coadjuvantes, oficiais, sargentos e meia dúzia de soldados.

Para apresentarem cumprimentos de despedida, chegaram alguns chefes militares do Exército do PAIGC e o Presidente da Câmara Municipal de Bissau.

Era o fim da colónia ou província portuguesa da Guiné, já independente desde o mês de Agosto.





2 Comentários:

Às 22 de dezembro de 2008 às 05:05 , Blogger Eduardo J. Magalhães Ribeiro disse...

Amigo Cor. Mendes Matos, esta descrição mexeu comigo, eu era um dos que estava no navio "UÍGE" no cais de Pijiguiti, para sair de Bissau, com o meu Batalhão que era o 4612/74.
Tal como ao Sr. também eu senti um baralho de sentimentos diversos ao abandonarmos Bissau pela última vez como militares em estado de guerra.
Aproveito a oportunidade para renovar o abraço amigo que demos no passado dia 10 de Junho, em Belém(Lisboa.
P.F. continue a narrar estes memoráveis episódios que, constituindo inequívocos e indiscutíveis factos históricos, serão um dia compilados por alguém que lhes fará a necessária justiça, na catarse daquela que foi a frente que mais marcou as gerações que testemunharam o último dos conflitos nacionais - a fatídica Guerra do Ultramar.
Eduardo M. Ribeiro - Ex-Furriel Milº de Op.Esp. do Batalhão 4612/74.

 
Às 24 de janeiro de 2016 às 13:31 , Blogger Antônio Trovela disse...

Senhor Coronel Mendes Matos, cumprimento-o muito respeitosamente!
Gostaria de saber mais detalhes sobre o último dia da presença portuguesa na Guiné, para corroborar ou não outros elementos que já recolhi para artigos e obras que estou a escrever. Concretamente, gostava de confirmar se o ultimo militar a entrar no último avião que descolou de Bissau no dia da independência teria sido o tenente-coronel BRUNO PEREIRA DE CASTRO, recentemente falecido. Ouvi da sua própria boca que de facto foi ele o último militar da Guiné, possuindo em seu poder o clarim e a última Bandeira Nacional, arreada sob o seu comando em presença de um tenente do PAIGC. Contou-me desse dia um pormenor curioso: o seu atraso e dos dois ou três militares que o acompanhavam, que teria sido de mais de meia hora em relação ao previsto, foi de tal modo inesperado que o comandante do avião já estava preocupado com a situação.
Estas memórias são pormenores que valem o que valem, é certo, mas eu gostaria de escrever sobre esse assunto com o maior rigor histórico. Muito abrigado pela ajuda que possa prestar-me!
Mário Leitão (Furriel da Farmácia MIlitar de Luanda, 71-73).

 

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