quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

A GUERRA COLONIAL EM ANGOLA



A MORTE DO ALFERES


Era a hora do regresso da escolta que fazia protecção às colunas civis, que transportavam mercadorias, do norte para Luanda e da capital para o norte. A vida económica não podia parar. Estagnar era morrer, era abandonar os braços ao infortúnio. A tropa protegia, a tropa lutava por Angola, a tropa defendia os fazendeiros e os patrões. A tropa morria, por uma coisa que diziam ser a Pátria ou pela colheita de uns sacos de café. Guerra trágica e madrasta para muitos. Benfeitora para outros, acumulando-lhes os lucros. Os soldados morriam. Com honra. No caminho da eternidade. Encomendados pelo piedoso cantochão clerical. Depois, o silêncio. O silêncio na dor das famílias. Ditosos filhos. Tristes mães. Sangue derramado pelo outro, pelo colonialista, pelo irmão negro ou branco, que o destino pôs na guerra, ou o infortúnio de ter nascido uma vintena de anos antes. A morte na mira das armas, a vida na incerteza das horas. A guerra. Só a guerra na abertura larvar dos dias. A terra e a família no sobressalto das angústias, na paragem das horas e no receio das notícias. Perdidas no nevoeiro das distâncias e das memórias, as raivas e os uivos projectados no que restava das almas.


A coluna ia partir de Sassa para Beira Baixa, por caminhos de Quicabo.

- Não!... Vou antes no jipão artilheiro, que nunca foi atacado, eles têm medo da artilharia - disse o alferes, rindo, e tomou lugar num dos bancos da caixa da carga, empunhando uma pistola-metralhadora, onde ajustou um carregador.

- Ponha-se a pau, que eles andam por aí, meu alferes!... - disse-lhe o artilheiro Elias ou Golias, aconchegando-se para o lado, para o oficial ir mais acomodado.

- Agora, que tenho cá a minha cara-metade, apertam-me mais as ideias sobre tudo isto. Parece-me que estou a ter mais receio - retorquiu o oficial.

- Aprecate-se, meu alferes, que isto é uma roleta, que Deus ou lá o que é faz rodar, e a vida pode ser curta - respondeu o Elias ou Golias, torcendo os lábios e continuou - Uma boa mirada de turra e um aperto no gatilho fazem lerpar um gajo, num relâmpago, nesta terra que dizem ser nossa, isto é que é uma verdade - e passou a mão pela arma, gesto mágico ou carícia.

- É uma verdade, amigos!... - disse o alferes Meneses, ajustando a correia do capacete.


Sete Curvas!

Um só tiro, no amplo silêncio, para além do roncar dos motores. Um tiro certeiro e a morte. A tragédia do militar abatido por uma mirada traiçoeira. Uma espera para matar, a coberto da mata virgem, de mil segredos, de onde se ausentou a presença de Deus, talvez protegendo o guerrilheiro, caído nas suas graças, cerceando a dilatação da fé missionária, que a estrutura imperial teimava em proclamar. A Pátria estava a esmorecer, chamas amortecidas e diluídas nas realidades da guerrilha. Postas em causa as razões da lusitanidade nos destinos de Angola. Aventuras desfeitas em memórias. E febres angustiadas atormentando os espíritos. Colonos patriarcais analfabetos perdidos pelos sertões. Pasmados e incrédulos, levados pela voragem dos tempos. Amantes de negras, criadores de mulatagem, no cio dos dias, na vertigem das horas e nas ânsias dos dinheiros, sofrendo a angústia das horas incertas da guerra.

A bala trespassou o coração do alferes Meneses. Perfurou a fotografia do cartão de identidade, que o militar trazia no bolso da camisa. Cortou a efígie e atravessou o tórax. O sangue a borbulhar. A vida desfeita sem um grito. Na hora trágica, as parcas quebraram-lhe os fios invisíveis da vida. O sacrifício do sangue ou o óbolo em nome da Pátria. A Pátria honrada por ter tais filhos. Merecedora dos mortos. O alferes na barca de Caronte, a caminho do imaginário Paraíso. A morte inocente, nos altares da Pátria, não pode ser lambida pelas sagas infernais. A boca aberta, os lábios suspensos pelo último rasgo de ar. A luz quebrou-se-lhe nos olhos arregalados. A escuridão cerrou-lhe as pupilas, rasgou-lhe as retinas. As pálpebras pararam de terror, para lá do infinito. Nos longes de Deus, nas mãos do diabo. Apenas nada.

Estampido sentido e logo a metralha infernal varreu as imediações das bermas da estrada. Depois, o voo para o chão, para a terra protectora, sorvendo os aromas acres da guerra. O tiroteio nas margens do capim, na foz da vida, rente à morte. Salivas e espumas amalgamadas no pó barrento, aos cantos da boca. Dentes cerrados de raiva. Pingos de urinas incontidas, na junção das pernas, flatos sumarentos, nas tremuras das terminações corporais, e a histeria gritante de alguns soldados bêbedos, soluçando arrotos de cervejas mal bebidas, inebriados pelas cóleras da guerra, perdidos na imensidão da Pátria. Pátria ou Mátria semeada de violências, de picadas poeirentas, de imbondeiros fantasmas, de surucucus traiçoeiras, de desertores conscientes, de colonizadores ávidos de angolares, de soldados rudes e analfabetos defendendo a hipocrisia histórica, unhas afiadas nas forças cegas do destino. E o silêncio dos mortos… milhares de mortos… Abatidos sem sentido, cujas memórias levam aos caminhos do desespero, da cólera e dos uivos mordidos até ao derradeiro alento, ou gritos famintos de esperança, nos destroços da África perdida.

À ordem dos chefes, o tiroteio abrandou. Um disparo aqui e ali e logo o silêncio. Um silêncio enervante rente à estrada, ao rés da alma enrolada como um verme a rastejar na terra ensanguentada. Os odores da morte a emergirem das silhuetas esverdeadas dos morros e o vento a gemer árias breves nas hastes do capim. Nunca a música dos infernos soara tão clara, tão simbólica. Timbres compassados na lentidão do tempo, sinfonias fúnebres sem alvoradas. A natureza embebida no luto, ou o dobre de finados pela morte, sempre presente, adivinhada em cada curva, em cada esquina.

O soldado Elias ou Golias, de pé, no jipão, boca arrepanhada por gestos de raiva, levantava o corpo do alferes, antebraços suspendendo as costas. As pernas caídas para um lado, a cabeça tombada para o outro, na moleza ainda quente da morte. Trágico cenário de peregrinas histórias. No altar da Pátria, José de Arimateia chora Cristo descido da cruz, sem mulheres, sem a Mãe, nem Madalena lavada em pranto, adúltera sem apedrejamentos. Sem lágrimas. Menino de sua mãe, o alferes Meneses morria e arrefecia na solidão triste do dia aziago, nos confins do sertão, sem Deus, exilado da vida. Sinistros eram os uivos lúgubres e repentinos, que o cão Pantera começara a lançar, nos faros da adrenalina e dos fétidos suores e outros odores corporais.

Elias ou Golias pousou o cadáver no jipão, cerrou-lhe as pálpebras, fechou-lhe a boca, estendeu-lhe os braços. Ergueu-se tremendo, olhos nas alturas e assentou dois murros na própria cabeça. Chorava. Passou o olhar pelos camaradas e gritou:

- Puta de guerra!... Só assombrações!... Onde pára esse Deus dos padres?

O mosquedo rodopiava em volta do corpo do alferes, picando sobre as manchas sangrentas da camisa. As moscas azuladas, ávidas de sangue e de carnes, eram os primeiros insectos a procurar os cadáveres. O cão, irrequieto, tentava abocanhar os insectos, trincando no vazio. Os dentes afiados, em inconstantes tiques nervosos. A guerra não era apenas dos homens. As moscas e os cães invadiam-na. Ao rés da tragédia. Do uivo. Nas margens do sangue. Sagrado e apodrecido, derramado nas terras vermelhas do sertão. A dor e a tristeza arrepiadas nas fibras sensíveis da alma. A vida e a morte jogadas nas curvas das picadas, nas orlas das matas e nas incertezas dos trilhos, minados por traiçoeiras covas-de-lobo. E os soldados cumpriam. Sofriam os rigores do clima, os desesperos da sede, a monotonia da alimentação e os febrões do paludismo. Mas cumpriam. Disciplinados. Humildes. Heroicamente rudes. Nas iras contra a morte. Nas raivas dos mutilados. Cumpriam sempre. Nas calhas do destino. Nas agruras e nos trágicos acontecimentos da guerra, em nome da Pátria.

Todos blasfemaram o momento. Um só tiro no peito do alferes. Perdido na honra da guerra. Um só disparo guerrilheiro. Uma só bala certeira no coração do alferes Meneses. A mulher em Luanda: Penélope sem regressos, sem fio de meadas para dobar. Viúva da Pátria. Viúva da guerra inaudita. O povo a morrer com os pedaços do Império.


Albano Mendes de Matos






Bateria de Artilharia 147 - Coluna a caminho do Norte de Angola.



Norte de Angola, 1961 - Funeral de militar, enterrado num terreno de secagem de café.

6 Comentários:

Às 6 de fevereiro de 2009 às 17:17 , Blogger AC disse...

Excelente poema em prosa, meu caro amigo. Ou não conhecesse eu quem escreve, como escreve e do que escreve; a acção e o local dela!
Justa ou injusta, colonial ou do ultramar, religiosa ou ideológica, de Angola ou do Kozovo, todas as guerras cobram sempre o tributo maior àqueles que não sabem por que combatem.
Parabéns pelo bom trabalho, e um abraço.
Calamote.

 
Às 2 de abril de 2011 às 08:05 , Blogger josé disse...

dMATOS
Amigo e colega destas histórias bem haja, por continuar a dercrever os episódios que nós vivemos e não deixar no esquecimento a BATERIA DE ARTILHARIA 147, que contribuiu para os grandes feitos Históricos de que tantos se orgulham. Esquecendo hoje de que foi com o apoio da Bat. Art.147 que batendo as zonas na frente, lhes facilitaram a progressão das grandes conquistas, como de entre outras em Nambuangongo e Pedra Verde.
JOSÉ REIS NEVES
2-04-2011

 
Às 7 de junho de 2012 às 05:18 , Blogger JORGE disse...

Também eu fui Alferes Miliciano da Companhia de Caçadores 1414, que esteve aquartelada na Beira Baixa.
Também eu Ferido em Combate quando comandava uma escolta a viaturas de civis, entre a citada Beira Baixa e Balacende.
Meu caro amigo, continue a escrever, porque estamos todos a "pisar" os SETENTAS e num futuro próximo, ninguém sabe dar o valor ao que nós sofremos

 
Às 7 de junho de 2012 às 05:19 , Blogger JORGE disse...

Também eu fui Alferes Miliciano da Companhia de Caçadores 1414, que esteve aquartelada na Beira Baixa.
Também eu Ferido em Combate quando comandava uma escolta a viaturas de civis, entre a citada Beira Baixa e Balacende.
Meu caro amigo, continue a escrever, porque estamos todos a "pisar" os SETENTAS e num futuro próximo, ninguém sabe dar o valor ao que nós sofremos.
Jorge Belo Rosa

 
Às 26 de maio de 2014 às 15:30 , Blogger Antônio Trovela disse...

Todos andamos as voltas com as memórias que ainda temos da Guerra do Ultramar. Também eu escrevo como sei, pelo que vivi nos dias tranquilos da minha comissão em Luanda. Mas também escrevo pelos outros, pelos meus camaradas LIMIANOS que não voltaram! Escrevo pelas lágrimas das suas mães, de todas as mães que não abraçaram os seus filhos na hora da morte! Tento perpetuar a sua memória, para que os vindouros ao menos saibam porque e que eles morreram. Esse poema e comovente, mas e UM GRANDE POEMA DE GUERRA! Que se entoe por todo o Portugal! Obrigado, Autor!a

 
Às 31 de maio de 2015 às 14:52 , Blogger João Rosa disse...

Ninguém que esteve como nós na guerra em África esquece o bom (muito pouco) e o mau, que foi muito.
Este homem, militar em tempos descreve este triste episódio duma forma digna de uma MEDALHA DE MÉRITO. A dialética utilizada, a qualidade de um português quase perfeito, (porque a perfeição não existe) é realmente digna de apreço, muitos parabéns.
Escreve livros com a história do teu Batalhão, escrita por ti deve ser uma obra digna de um merecido prémio literário.
Esta descrição é apenas um hino à lingua portuguesa que permite maravilhas como esta.

Estive no Furancungo 28 meses, de Nov.71 a Fev.-1974, tenho um livrito escrito sobre os meus tormentos, destas experiências não tive,muito satisfeito por isso.

Abraço, e escreve mais, mito mais, é um prazer ler esta prosa "espetáculo"|||

 

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