sábado, 7 de fevereiro de 2009

A GUERRA COLONIAL EM ANGOLA


UIVOS E CLAMORES NAS PICADAS DE ANGOLA

A coluna de socorro e reabastecimento progredia em marcha lenta. O perigo podia estar perto. Acutilante e atenta a observação. O terreno pouco acidentado. Subiam lombas, passavam plainos, atravessavam aterros e trincheiras, sob a impressionante cúpula das ramagens. Adiante, a tropa apeada farejando as bermas. Atrás, na expectativa, as viaturas de reabastecimento e o pessoal de escolta. O sargento Norberto e o soldado Elias ou Golias iam na segunda viatura. A tropa em perfeita coordenação. A missão era humanitária. Socorrer irmãos de armas. A tensão nervosa aumentava com o passar dos minutos. As espingardas tremiam. Os olhos vigiavam. Os medos apertavam as almas.

- Põe-te a pau, Elias, que estamos perto! - ciciou o sargento Norberto.

- Olho vivo e dedo ligeiro é o preciso, meu sargento! - respondeu o soldado, olhando em redor.

- Tanto silêncio, está a cheirar-me a esturro - disse o sargento.

- Que se cheguem, que levam p’ra carvão! - respondeu Elias ou Golias.

- Pode ser que não seja nada!

- A guerra é para os homens, meu sargento! - gracejou Elias ou Golias.

- Já há mulheres, Elias!

- São umas marafonas, que andam nas avionetas, de rata arejada. Não põem o traseiro nas picadas. Isso põem elas!...

- Acompanham os feridos, são muito úteis, no lugar dos homens. Deixam estes para a guerra. Quem manda, manda bem.

- E acompanham os padres, na boa-vai-ela! - disse rindo o soldado Elias ou Golias.

Nos musseques da cintura de Luanda, a pedido dos capelães, as enfermeiras pára-quedistas tinham uma missão sacramental. Amadrinhavam prontamente centenas de negrinhas e de negrinhos, arregimentados inocentemente para a religião oficial ou oficializada. Um punhado de água benta e a cantata de umas jaculatórias, com um pouco de sal, tiravam-lhes as marcas tradicionais do animismo, que a maior parte dos pais professava. Entravam na religião de Cristo ao som das metralhadoras, dos morteiros e dos canhões. Assim ficavam com religião de gente. Dizia-se. Gente era o branco, mesmo que analfabeto. Ignorante, abaixo de cão, era o preto, por sorte ou azar de ser negro.

Passavam numa ligeira trincheira com arbustos na crista. O sargento Norberto levantou-se e coçou as virilhas. Inesperadamente: um tiro. O sargento tombou de escantilhão sobre o soldado Elias ou Golias, que tentou ampará-lo, ao mesmo tempo que lançou um urro de raiva. Outro tiro e logo outro. Um cabo gritou estou morto e tombou pela parte de trás da viatura. O condutor, com grande sangue frio avançou uns metros, para tentar fugir da zona de morte. Os soldados saltaram da viatura, abrigaram-se nela e dispararam para todos os lados. O corpo do cabo ficou estendido na picada. Sobre a viatura, picou uma rajada. Um cabo tinha uma granada defensiva à cintura. As mãos tremiam-lhe. Num instante decisivo, arrancou a granada, tirou-lhe a cavilha e lançou-a por cima da viatura, para lá da crista da trincheira. Logo a explosão. Os militares das outras viaturas, fora da trincheira, dispararam desordenadamente para o terreno em declive, pejado de árvores. Não havia possibilidades de fazer fogo de morteiro, nem de lança-foguetes. Foram colhidos de surpresa, num local difícil. A guerrilha não escolhia horas para matar. Mas escolhia terrenos propícios, vantajosos para as emboscadas. Uma guerra em que a tropa, dita convencional, para dar caça ao inimigo, nunca sabia onde ele podia surgir. Era terrível aquela guerra.

Os guerrilheiros deixaram de fazer fogo. A tropa ia disparando por todo o terreno. Ninguém conseguia retirar o dedo do gatilho. Metro a metro, alguns militares rastejaram para as cristas da trincheira. Abrigavam-se, de árvore em árvore, sempre a fazer fogo. Ou matar, ou morrer.

No cume da trincheira, um furriel olhou para baixo e disparou a pistola-metralhadora, numa onda de raiva, para a esquerda e para a direita. Despejou, num ímpeto, cinco carregadores, varrendo o terreno em meia-lua. Não houve qualquer resposta dos guerrilheiros.

Os soldados começaram a falar. Refeitos do susto, tentavam saber o que tinha acontecido.

- Já deram com os calcanhares no cu - sentenciou um.

- Cortaram-nas, os filhos duma puta! - disse outro.

O soldado Elias ou Golias saltou para a viatura e gritou, chorando:

- O nosso sargento Norberto está morto!... Morto!...

A cara do sargento era uma máscara de sangue. A cabeça rasgada pela metralha de uma canhangulada, atirada à queima-roupa. Um buraco no osso frontal, com derrame de massa encefálica, o nariz desfeito, um olho vazado. O sangue escorrendo. Voluntário para a guerra. Voluntário para a morte. Humanista e altruísta caiu sem glória, martirizado no sacrifício total. Cordeiro, de sorte madrasta, imolado no altar da Pátria Lusíada. Sem Deus, nem anjo da guarda. No cumprimento do dever, na hora trágica e absurda da guerra, que ia ceifando a vida a muitos soldados portugueses.

De costas, caído na picada, olhos muito abertos, na imobilidade da morte, estava o cabo atirador Vasconcelos, atingido por três balas. Um tiro entre os olhos e dois no peito levaram-no para a outra vida. A boca muito aberta, como que rindo. Derradeira expressão de uma vida, que a Pátria imolou.

Amainada a situação, o alferes comandante da coluna correu a perguntar se mais alguém foi atingido. Só mais três soldados atiradores tinham sido feridos. Um com um tiro num braço e dois com tiros nas pernas, que o enfermeiro tratou. Foi apenas uma canhangulada. E fez efeito. A que levou o sargento Norberto. Fecharam-se os seus livros, cercearam os seus saberes, ludibriaram as suas ideias e ficaram órfãos os seus filhos. Viúva a sua mulher, na riqueza de uma pensão de sangue. Na dor e na glória póstuma de uma condecoração, no patético cerimonial do Terreiro do Paço, vestido de luto, no dia maior da Portugalidade. O Dia da Raça. Que raça? Preta ou branca? E os mulatos? Perguntar-se-ia em Luanda, especialmente na cidade da areia, de casotas de pau a pique, vasculhadas por polícias e por patrulhamentos militares, na hora do desagravo e da vingança. A guerra é demolidora. Num minuto tudo se altera. Talvez a geração órfã, filha dos combatentes em África, gerada nos últimos ardores da despedida, ou nascida antes da guerrilha, não compreenda esta guerra, que lhe roubou os pais que não conheceram.

Uivavam os ventos nas espessuras das florestas virgens. Gritavam os macacos, as hienas, os chacais e os abutres, ao rés das tropas metropolitanas, instaladas ou acantonadas em tendas, barracas, currais e galinheiros. Gritavam ou uivavam as matilhas famintas de mabecos, procurando as canelas dos patrões. E rugiam os leões, reis das savanas, ao troar das morteiradas. E gritavam os soldados, quando o aço ou o ferro lhes penetravam nas carnes e nos ossos, desfazendo braços, eliminando pernas, lacerando pés e testículos. E gritavam, contra as muletas, os amputados das pernas. E gritavam os que não podiam rastejar, amarrados à velocidade das cadeiras de rodas. E gritavam os militares que não tinham mãos para agarrar nos sexos. Mijavam pelas mãos dos outros. E gritavam os soldados que nem sexos tinham. Cerceados rentes pela metralha. Antes a morte. Diziam. A tragédia podia chegar a todos. Um dia era um, outro dia era o outro. E havia os soldados que endoideciam, gritando frases desconexas, perdidos da memória, das realidades e da vida. E havia outros gritos. Gritos sentidos para dentro, com angústias metafísicas de honra. O grito dos corneados. Avisados por amigos ou pela família. As guerras são palcos para todas as tragédias. E havia uivos nas picadas da Angola.

ALBANO MENDES DE MATOS


Bateria de Artilharia 147 caminha para o Norte de Angola, 1961.

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